domingo, 19 de outubro de 2014

Resenha: O segredo do meu marido

Acho que posso comparar  “O Segredo do meu marido”, de Liane Moriarty,  àquele bolo que tem uma massa tão deliciosa que você nem se importa com o recheio, entendem? A narrativa é tão perfeita que o “segredo”, em minha opinião, é a parte menos interessante do livro.  O que quero dizer é que o “segredo” não me surpreendeu e quando ele foi nitidamente apresentado não constituiu, nem de longe, um dos momentos mais memoráveis do livro.



Ao terminar de ler “O segredo do meu marido”, você não vai se importar com o segredo. Você vai sentir saudades de Rachel, Tess e Cecília. Vai querer ser neta da primeira, melhor amiga da segunda e filha da terceira. Mais que isso, você vai compartilhar a dor dessas três mulheres, vai querer abraçá-las, dizer que vai ficar tudo bem e que a vida não pode ser tão cruel. Acredite em mim, você vai chorar por e com elas.

Ah, tem Felicity também, mas duvido que você queira ter alguma relação ou sentimento de empatia por ela. Peço desculpas às fãs de Felicity (alguém?) por isso.

Embora o livro possa ser descrito com a narrativa da história dessas quatro mulheres, os homens – John Paul (marido de Cecilia e pai de Polly, Esther e Isabel), Connor Whitby (professor de educação física das filhas de Cecília e ex-namorado de Tess e Janie, filha de Rachel) e Will (marido de Tess), também me sensibilizaram. É tocante a relação de John Paul e Will com seus filhos. E Connor é aquele homem sarado, paquerado pelas mães e alunas, mas com espírito de cachorrinho abandonado, sabe? Que você quer colocar no colo e consolar?

Não sei se posso ser mais clara sem estragar as surpresas do livro. Vou tentar ir um pouco além.

Rachel e Cecília residem na mesma cidade e são relativamente próximas, já que Rachel é secretária da escola onde as três filhas de Cecilia estudam. Cecília é a típica mulher moderna, com a vida cronometrada para conseguir ser mãe, profissional, esposa, cuidar do lar e ainda ser atuante na sociedade. Rachel é uma senhora que sobrevive há anos com a perda de sua filha Janie, dor que se agravou com a notícia que seu neto Jacob, o garoto das mãos gordinhas, vai se mudar para Nova York, levando com ele o pouco de vida que tinha restado a Rachel.

Após ler a carta escrita por John Paul, a vida controlada e feliz de classe média de Cecilia despenca. Ela não consegue mais seguir em frente diante daquela revelação, e culpa John Paul por tê-la colocado nessa situação. Cecilia fica dividida entre revelar o segredo a quem tem o direito de conhecê-lo ou conviver com aquele fato, em silêncio, mas continuar com sua família unida e intacta. Quando Cecília finalmente assume para si que jamais seria capaz de colocar sua família em risco, algo terrível acontece, e o segredo fica em segundo plano, diante de tanta dor e tristeza.

O inferno enfrentado por Tess é mais íntimo. Após anos de um casamento bem sucedido, ela recebe a notícia de Will: “Tess, não sei como lhe dizer isso. Mas Felicity e eu nos apaixonamos.”. Poderia ser apenas mais uma história clássica de traição e é realmente é, no entanto,  Liane Moriarty traz à tona,  junto a esse drama, questões mais complexas, como a ansiedade social de Tess, a crise de meia-idade de Will e a ex obesidade de Felicity. É a partir dessas discussões que Tess cresce na trama e torna-se a minha personagem favorita.

Se eu me decepcionei com o “segredo”, os últimos capítulos compensaram qualquer frustração anterior. É um dos melhores finais que já li.  Por quê? Porque eu não consegui imaginar um desfecho mais satisfatório. Entendam, não estou dizendo que se trata de um happy end, infelizmente, está um pouco longe disso, mas diante das circunstâncias, é o melhor final que poderia haver.

Espero ter despertado a curiosidade de vocês a ponto de clicarem imediatamente em um dos links a seguir ou correrem até a livraria mais próxima. Ah, só mais uma dica, não esperem somente momentos tensos e tristes, o livro têm passagens descontraídas também.

"Cecilia passou a maior parte do funeral da Irmã Úrsula pensando em sexo. Não em sexo pervertido. Sexo suave, conjugal, aprovado pelo papa. Mas mesmo assim. A Irmã Úrsula provavelmente não teria gostado disso."

"Talvez ele fosse gay. E por essa razão não faziam mais sexo. (...) Ele gostava de musicais. Amava Cats! E era melhor do que ela na hora de arrumar o cabelo das meninas.(...) John-Paul tinha uma camisa polo cor de pêssego e ele próprio a passava. Sim, provavelmente era gay."

"(...) Ele a beijara no portão do prédio, em seguida a beijara outra vez na escada, e por um longo tempo na porta de casa, depois de novo com a chave na fechadura, e então estavam fazendo aquela coisa louca de "um arrancar as roupas do outro esbarrando nas paredes", o que nunca se faz quando está numa relação duradoura porque parece muito dramático e, de qualquer modo, não vale o esforço, especialmente se tem algo bom passando na TV."

Onde comprar: 

Submarino (R$ 23,90)
Saraiva (R$ 22,40)
Americanas (R$ 22,00)

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