sábado, 9 de maio de 2015

Resenha: Extraordinário

"Palavras gentis não custam muito, e ainda assim conquistam muito." - Blaise Pascal

Quando eu era adolescente, com 13 ou 14 anos de idade, uma “conhecida” disse que eu era muito feia. Ela falou numa boa, na frente de algumas amigas minhas e mesmo depois de ver o espanto escancarado no rosto de todas nós, ela não disse que tinha se expressado mal ou pediu desculpas, apenas continuou lá, como se nada tivesse acontecido. Eu também não disse nada, também continuei na rodinha como se aquilo não tivesse me atingido. Só agora me ocorreu que talvez um pouco de violência física pudesse ter sido uma reação apropriada na ocasião; no entanto, eu era uma mocinha muito educada e prestativa, e rolar no pátio da escola, em cima de uma colega, não ficaria bem no meu registro escolar.

O relato acima é verídico e estava na minha lixeira mental até eu ler Extraordinário. Obviamente eu não quero comparar a agressão sofrida por mim com o bullying enfrentado por Augustus, o protagonista do livro, mas a minha história, em conjunto com a obra, me fizeram refletir sobre a ação de algumas pessoas que, intencionalmente ou não, são cruéis e nos julgam como produtos em uma prateleira, onde o aceitável deve seguir um padrão especifico de qualidade.

(Imagem: submarino.com.br)
No livro, Augustus enfrenta esse julgamento desde recém-nascido, quando foi diagnosticado com um conjunto de síndromes que provocaram anomalias em seu rosto. Ele foi educado em casa até os 10 anos de idade, quando seus pais decidiram que estava na hora dele frequentar uma escola comum. Inicialmente, Augustus rejeitou totalmente a ideia, afinal, ficar exposto aos olhares de dezenas de crianças não parecia ser algo agradável. Mas apesar do medo de ser rejeitado, Auggie aceita ir à escola, encorajado pelos pais e por sua irmã, Via.

O livro é dividido em oito partes, com narrações em primeira pessoa de Auggie, Via, Summer e Jack - melhores amigos de Auggie, Justin – namorado de Via, e Miranda, a melhor amiga de Via.
 A partir dos relatos de Auggie temos acesso a duas realidades diferentes: a de uma criança normal, que adora fazer coisas normais, e a de um menino diferente que precisa se aceitar e ser aceito pelas pessoas.

A narrativa de R. J. Palacio é muito realista, ela consegue, com uma transparência inacreditável, transportar o leitor para o mundo de Augustus. Eu, por exemplo, consegui enxergar a dor da rejeição e do julgamento, mas também vi um garoto comum, divertido, inteligente e muito amado.

É quase indispensável dizer que a emoção transborda do início ao fim da narrativa. Eu chorei, literalmente.  Mas, por favor, me digam como é possível não expressar em lágrimas o meu sentimento de “ver” uma criança, pouco mais velha que meu afilhado, perguntar à mãe “por que ele é tão feio”? Eu fiquei tão chocada que precisei de um tempo para retomar a leitura.

A estratégia da autora, de intercalar os relatos de Auggie aos de pessoas próximas a ele, tornou o livro completo; afinal, de que outra maneira o leitor saberia que Augustus não é a única pessoa que precisa enfrentar a sua diferença? Que sua condição exigiu cuidados especiais por parte de seus pais a ponto de deixar sua irmã em segundo plano? E que sua irmã se sente uma pessoa terrível por pensar dessa forma?

Eu simplesmente adorei o livro e me questionei mil vezes por que demorei tanto para lê-lo! É uma lição de vida, mas não pelo motivo que você talvez esteja pensando - uma criança superando suas diferenças.  É muito mais que isso! Você vai perceber que aquele seu olhar de estranheza ou compaixão ao ver uma pessoa que não se encaixa nos padrões de normalidade, seja por estar muito acima ou abaixo do peso ideal, por ter o corpo tatuado, cabelo rosa, ser portador de alguma deficiência física ou quaisquer outras peculiaridades físicas ou comportamentais, não é legal. Digo isso porque já olhei dessa forma em algumas ocasiões e mesmo afirmando para mim mesma que era normal, pois o dito “diferente” chama a atenção, eu me culpava. Auggie deixou bem claro para mim que até mesmo um olhar sutil, de pena, é cruel e desnecessário.  Foi um tapa na cara de um menino de 10 anos!

"Toda pessoa deveria ser aplaudida de pé pelo menos uma vez na vida, porque todos nós vencemos o mundo." - Auggie

Onde achar:
Amazon (R$13,59)
Saraiva (R$14,30)
Submarino (R$22,90)

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